História de todos os dias (parte 0)

Era uma noite como muitas outras noites iguais. Podia sentir no ar pesado, carregado. Carregado de partículas invisíveis para os outros mas que ela podia ver claramente, dançando alegres e lúgubres, sua tonalidade cinzenta destacando-se contra o fundo escuro do mundo. Chegou ao apartamento e ficou procurando o que fazer. Estava com fome apesar de tudo. Tomou uma vitamina de frutas e ficou vendo TV. Novela. O ópio do povo. Ou seria futebol? Não importava. Cenas e diálogos toscos se lhe apresentavam e ela via e ouvia tudo sem enxergar ou escutar nada, numa espécie de catatonia consciente. Quando cansou-se ou desacostumou-se àquela letargia, foi ao banheiro fumar. Sentou-se na privada, acendeu um cigarro e ficou ali com um ar blasé, sorvendo quase com delícia aquele coquetel de alcatrão e nicotina. Lembrou-se de quando era uma adolescente fumando no banheiro, escondida dos pais. Agora ela era uma jovem adulta que morava sozinha e não tinha de quem se esconder nem com quem conversar. Seria uma longa noite. Continuou fumando e era estranho como o gosto do cigarro mudava conforme a ocasião. Era diferente quando ela estava em festas, brincando de tapar aquele buraco com música, dança, risos, beijos. O gosto do cigarro vinha misturado ao de cerveja, vinho, beijos na boca de caras que não fumavam, beijos na boca de caras que fumavam, e essa última situação tornava o sabor quase agradável. Mas sempre que fumava sozinha no banheiro ou no quarto ou na varanda o gosto era outro. Sem retoques ou coadjuvantes, revelava-se implacavelmente amargo, fétido, seco. Em longas baforadas ela observava a fumaça subir em espirais de melancolia, desespero, apatia, agitação. Apagou a guimba no copo que servia de cinzeiro e deixou-se ficar ali sentada no escuro. Recostou-se na descarga. De repente foi sacudida por uma vontade imperiosa de gritar, berrar desarvorada, esmurrar paredes e grades da jaula, quebrar toda a mobília, arranhar todo o corpo com filetes de sangue, socar o estômago até vomitar toda a vitamina, arrancar os longos cabelos e assim sentir mais dor e gritar ainda mais forte. Os vizinhos acudiriam, estarrecidos. Em trajes de dormir postariam-se na porta de seu apartamento. "Mas o que aconteceu com a moça do 205?" "Ela parece tão normal..." murmuraria com olhos esbugalhados o cara do 206, que tinha cara de mongo e punha a TV num volume tão alto que parecia surdo. Chamariam algum fortão para arrombar a porta, e a moça tão normal seria encontrada em delirium tremens, batendo os dentes
alvos e os lábios roxos, com sangue e cacos e mechas de cabelo por todo o chão, como se a sala fosse cenário de algum crime do Edgar Allan Poe. Ela seria levada às pressas para o hospital, onde morreria balbuciando palavras ininteligíveis. Mas nada disso aconteceu. Ela saiu do banheiro e dirigiu-se lenta para o quarto. Passo após passo. Concentrada em cada passo. Mais um e cairia no
precipício. Fechou os olhos e decidida deu o passo decisivo mas de novo nada aconteceu. Caiu em sua cama de molas já um tanto duvidosas e ficou ali estirada de braços abertos, olhando na penumbra para o teto ornado de brilhantes estrelas, luas, sóis, estrelas-do-mar, tartarugas marinhas, numa imitação festiva de céu e oceano. Ficou olhando para eles por incontáveis minutos. Um dia tudo aquilo passaria e ela dormiu quase feliz, quase esquecida de que na noite seguinte começaria tudo de novo.

Por Juliette