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DEU BRANCO!
Embora Newton prove absolutamente ao contrário, ou seja, branco é o resultado da mistura de todas as cores, deu branco é aquele constrangedor silêncio do ator que esqueceu o texto; do palestrante ante uma pergunta estúpida ou inteligente demais. Mas também o símbolo da paz, da pureza da santidade, isto porque se o branco pode abraçar todas as cores, não há cor que possa reclamar de rejeição. Aliás, já ensina Reinaldo Pimenta, lá da Casa da Mãe Joana, que preto e branco são palavras que têm a mesma origem (“black” = preto e “blank” = em branco, no sentido de vazio, sem nada escrito. Seja como for, quando dá um branco é que a situação fica negra. Devemos todos temer o branco, onde a brancura excessiva pode expressar na realidade a mais absoluta falta de criatividade - “Pinta tudo de branco, que não há erro!”, diz o decorador preguiçoso. Não foi à toa que inventaram o “off White” - o branco que não é bem branco ou que tem medo de ser branco. Uma espécie de Michael Jackson ao contrário. Outro dia assisti a um programa de televisão que tratava de decoração de interiores, onde uma artista expunha seu trabalho com obras brancas que apresentavam (ela se gabava) mais de 140 tonalidades! Falo isso tudo por experiência própria, porque um dia fomos castigados pelo pecado da cor branca de vida fácil na nossa própria casa. Há 15 anos pintamos o novo apartamento recém adquirido de branco. Todo branco. O piso de cerâmica, branco. As persianas, brancas. O teto, branco. Os ventiladores, brancos. A marcenaria das estantes, brancas. O tapete do escritório, branco. A cozinha aberta para a sala, branca, assim como a geladeira, o freezer, o microondas e a coifa, brancos. Só destoava o fogão que era negro simplesmente porque na época o mercado não dispunha de fogão branco. Havia fogão de todas as cores. Menos branco. Então, resignados, sem alternativa, o fogão negro foi embutido no berço da bancada, como um sinal de alerta que nem tudo pode ser tão branco assim. 12 anos mais tarde, um prédio - inimigo da luz - foi construído no terreno tapando a única vista que tínhamos da Natureza e escurecendo nossa casa. É que o nosso apartamento fica no primeiro andar dos fundos de um prédio, que dava para um enorme terreno baldio, que por sua vez, fazia frente para a avenida, do outro lado do quarteirão. Nessa situação, o apartamento, embora de fundos, tinha uma vista espetacular, pois em toda sua extensão há uma varanda de onde podíamos ver as pessoas passeando na rua do outro quarteirão – sem esquecer que nesse vazio tinha árvores frondosas, mamoeiros, amendoeiras, mamonas, passarinhos, grilos e até galo cantando pela manhã. Sabíamos todo o tempo que, com mais dias ou menos dias, alguém iria construir nesse baldio, e provavelmente um prédio como o nosso. Iríamos ficar totalmente sem vista e no escuro – ou seja, cegos. O branco, certamente, pensamos nós, atenuaria essa escuridão refletindo os resquícios de luz que conseguissem penetrar pelo vão que sobrasse entre o prédio vizinho dos fundos do nosso. Foi por esperar essa situação que planejamos desde o início branquear todo o apartamento. Só que os dias foram passando, e ninguém construindo. Passaram-se, na realidade 12 anos e o nosso apartamento, arejado pelo vento que vinha do mar, com toda sua brancura, era um grande refletor – uma enorme lâmpada. Até que um dia repentino, acordando de manhã, e indo espreguiçar na varanda e ver como estava a vida, vi aquela implacável placa...(com trocadilho). Estava de costas para mim, para dizer a que veio para os que passam na rua do outro lado do quarteirão. Mas eu podia adivinhar o que dizia, sem mesmo ter que ler... Foram dezoito meses de sufoco, de tortura, de agonia, de falta de ar, de poeira, um terror sonoro de estacas, serras elétricas, peão cantor feliz, sujeira, enquanto se construía um prédio, emparedando definitivamente, a pouco mais de cinco metros, toda nossa varanda. Extinguia-se assim todo aquele festival de verde, Sol e céu. A lâmpada queimou! Nada podíamos fazer, senão rezar que pelo menos o abençoado arquiteto que projetou o prédio aos fundos do nosso, tivesse especificado uma cerâmica bem clarinha para a fachada, e quem sabe vidros espelhados, para que a luz da manhã, vindo de viés, pudesse refletir um pouquinho para o interior da nossa varanda, para revigorar, pelo menos, o jardim. Finalmente resultou que a cerâmica do prédio inimigo era clara, e refletia bem a luz do sol e a luminosidade do pouco céu que restou entre os dois prédios. Mas os vidros da janela do vizinho eram como a limusine de celebridade: fumês. Eles me viam – mas eu não podia vê-los! Lá se foi nossa privacidade. As janelas dos vizinhos guarnecidas com misteriosas cortinas e persianas seriam com certeza o esconderijo de voyeurs lascivos de tudo que se passa em nossa casa. Em defesa imediata, fechamos a varanda, instalamos toldos e aparelhos de ar condicionado. Transformamos nossa casa em um bunker. O apartamento mergulhou em escuridão profunda. Tudo que era branco ficou pardo, ou um gelo de ar condicionado, se não fosse o calor que também aumentou em razão da redução drástica da excelente ventilação que tínhamos antes. Não havia mais cor. Os objetos eram apenas notas esbarradas ao acaso num piano. Situação negra, hem? Nem tanto. Um novo conceito começou a se esboçar em nossa mente. Sem vista, a intimidade deveria ser valorizada! Aprendemos que vista é apenas uma presença agradável, mas não um abrigo. Nem todo mundo mora no Arpoador. Moramos dentro de casa. Todos os dias somos cercados pelos objetos que nos afetam e com os quais mantemos uma vigorosa relação todo o tempo. São realmente objetos de nosso desejo, porque foram introduzidos no interior de nossa casa exclusivamente porque possuem o atributo de nossa escolha ou aceitação. Seja a cômoda da vovó, a porcelana da mamãe, o quadro da titia, o tapete que sobrou sem utilidade na casa da amiga, enfim, os objetos que vamos adquirindo ao longo da nossa vida guardam cargas emotivas importantes que os tornam muito mais valiosos do que supõe o avalista comerciante. Esses são os elementos que conformam o cenário no interior de nossas casas e são esses os elementos que comporão a sinfonia da decoração dos nossos ambientes, onde as cores podem ser um perfeito e essencial contraponto. Lutamos com o firme propósito de não permitir ninguém escurecendo nossa casa senão nós mesmos e voluntariamente. Em ação guerreira, pintamos o apartamento com cores fortes. Azulão escuro contraposto a um verde “folha” nas paredes da sala. O quarto com paredes de chocolate virou o nosso “Kinderovo”. As paredes que outrora eram ditas brancas e que, com a presença do prédio invasor, ficaram completamente “off”, deram lugar a personalíssimas e audaciosas cores que aparecem vigorosas e conspícuas com a mais tênue luz. As paredes internas voltaram a fazer parte da música, como magistrais “back-voices” dos nossos móveis e objetos que, ao final das contas, ganharam inesperado valor decorativo e harmônico. Morte aos voyeurs! Resumo da lição:
Por Zé Jabuti
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